Diário do O.V.N.I

[ Sábado, Janeiro 13, 2007 ]

 
mais um! mais um! mais um!


Abduzidos: Dante Ixo[9:49 PM]

[ Quinta-feira, Abril 13, 2006 ]

 


Abduzidos: Dante Ixo[8:12 PM]

 
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Abduzidos: Dante Ixo[8:11 PM]

[ Quarta-feira, Janeiro 25, 2006 ]

 
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Abduzidos: Dante Ixo[1:14 PM]

[ Quarta-feira, Novembro 16, 2005 ]

 
Capítulo XVIII - NA JANELA

- Quero que a gente vá junto pra algum lugar longe daqui - precipitou-se Belize. - Não confio em ninguém mais e preciso que Mirim esteja seguro também. Somos só nós três, Nilo, agora.
Ele tentava encontrar sentido na urgência que saia da voz quase sussurrada de Belize. O som da chuva rala se avultara e agora chiava espalhando-se abafado pelo rebaixamento de tábuas do teto, como uma grande ampulheta de areia fina. Ela respirou, atravessou o metro e meio que a separava da cama e sentou-se, continuando. Nilo a seguiu.
- Eu não queria mais. Não queria mais, faz tempo. E logo agora, quando estava decidida a resolver com ele da maneira certa, ele sumiu. Uma semana, sem nem um telefonema. Na semana em que eu marquei com você; justo nessa. Estava recebendo telefonemas, no começo da semana... Silêncios, Nilo. Desligavam em seguida. Apavorei-me um pouco, sabe? Chorei muito.
Nilo fez menção de a silenciar levantando o dedo. Estava indo rápido demais, Belize. Ela segurou-lhe a mão carinhosamente, entre as palmas, fitando-lhe nos olhos. Nilo viu um incompreensível medo reluzir no fundo das pupilas dilatadas pela luz tênue da lâmpada incandescente, e recebia cada palavra dela com absoluta desconfiança. Nas entrelinhas haveria alguma verdade imediata; nas linhas, ele sentia, não. Belize não era uma mentirosa compulsiva, mas não tinha escrúpulos em pedir desculpas depois, como uma santa que estivesse agindo em nome da proteção dos mortais, por ter escondido esse ou aquele detalhe, geralmente sórdido, em suas histórias.
Tirou a mão de entre as palmas de Belize e o movimento fez com que uma lufada do cheiro dela esbofeteasse seu rosto, de leve. Fez força pra não fechar os olhos em deleite. O cheiro amoleceu-o por alguns segundos e ela permaneceu calada, quase percebendo. Levantou-se e abriu a janela. Um retângulo de luz iluminou a dança das gotas no chão à frente da janela, do lado de fora. A camisola deslizou aceitando a gravidade e os seios saltaram ainda com mais força. As costas emolduradas na leveza do tecido, deixando revelar a cada passo um novo contorno, uma nova linha. O som da chuva entrou pela janela com força. O céu estava desabando lá fora desde que Nilo voltou do banho.
- E essa aliança? O que significa isso quando você me faz vir de Ilha do Monte até aqui e me diz que quer ir embora comigo?
- Se faz tanta diferença pra você, eu tiro agora. Achei mais seguro mantê-la, caso me encontrasse com algum conhecido. Ainda estamos relativamente perto de nossa casa. Grilá tinha negócios por todos os lados. Não me sinto segura ainda... - Sentiu-se boba ao dizer essas frases, como uma menina.
- Não entendo... - levantou-se e apoiou os cotovelos na janela, ao lado dela. - Me conte o que se passa que te deixa assim. Eu nunca te vi antes com medo de nada, Belize.
Ela pensou um segundo, como medindo com uma trena exata as palavras que diria, falando pausadamente em seguida. Contou-lhe que no domingo em que havia ligado marcando o encontro, Grilá estava em viagem; voltaria três dias depois, na terça. O plano é que, na quinta seguinte, quando ele voltasse a viajar, ela o acompanharia até Tenente Flores sob um falso pretexto de uma consulta médica. Lá ele pegaria o avião. Dispensando o motorista de alguma maneira, Belize ficaria no hotel à espera de Nilo para fazerem calmamente os planos de onde se juntariam, definitivamente, dentro mais três ou quatro dias. Esse havia sido o plano que a levara a impetrar a ligação no domingo anterior. Mas Grilá não voltou na terça, como planejado, nem ligou. O celular saiu de área na segunda ainda e na quarta Belize estava muito preocupada. Grilá andava estranho naquelas duas semanas, falando coisas bobas sobre a morte. Passava horas na sala dos livros, trancado, sentado à mesa de pedra. Chegou a propor a Belize que viajassem uns meses pela Europa. Uns quatro ou cinco meses atravessando o mundo, confortavelmente instalados onde quer que fossem. Assim que ele voltasse dessa viagem de quinta, ele dissera, passariam dois ou três dias na praia pra planejar a viagem. Belize deixou escapar um vulto de lágrima enquanto dizia isso. Na quinta, os telefones de casa não pararam um minuto até que ela decidiu seguir com o plano mesmo sem Grilá. Muitas pessoas com quem ele havia marcado haviam ligado já na quarta, estranhando sua ausência em reuniões importantes ou compromissos sociais agendados pra semana. Logo depois do almoço chamou o motorista e partiram pra Tenente. Do hotel, ela continuou a ligar pra Grilá, mas o celular continuava desligado. Às seis horas ligou pra casa e foi informada que um homem acompanhado por outros dois, que se identificara como portador de uma mensagem de Grilá pra mim, queria me ver. Alegou extrema urgência e que só falaria comigo. Um dos empregados disse que eu havia viajado pra Tenente Flores e o homem foi embora. Com medo do que ouvira ao telefone, tendo certeza absoluta que Grilá não enviaria pessoas desconhecidas até sua casa sem antes avisar, Belize chamou o motorista e fugiu pro lugar mais seguro que conhecia nas proximidades, a Pensão da Nêga, deixando o bilhete que Nilo recebera no hotel, horas depois. A pensão da Nêga fora nos últimos 10 anos um bordel, administrado pela própria, mas nos últimos meses fora fechado depois que Nêga teve problemas com a polícia, por causa de uma de suas meninas. Era a mãe do motorista, Beto Nova York, o negro que aparecera à porta de um dos quartos, quando minutos antes único empregado em quem Belize tinha alguma confiança. Ela ajudara Nêga e as meninas do bordel quando do incidente. Comprou o casarão ao proprietário, que durante todo o tempo, alegando intuito de transformar o casarão em um hotel fazenda, acabou por torná-lo num puteiro exótico para gringos. Caravanas de branquelos turistas, com suas roupas dissonantes, chegavam algumas vezes por mês para desfrutar das graças das mulatas, das meninas da Nêga, durante uma cavalgada ou banho de rio, à vista da natureza exuberante de certos recantos da fazenda; ou num passeio de barco. Um paraíso de coxas sedentas por dólares fáceis e prazeres rápidos. Quando o proprietário desistiu do negócio diante do escândalo e da polícia, deixando Nêga e as meninas sem lugar, Belize convenceu Grilá a comprar-lhe o casarão e a fazenda, não muito grande, ao redor. O ar de tempos remotos que se adensava no interior daquela construção lhe inspirava boas coisas, ela dizia. O casarão, agora sem as meninas, exceto duas que se instalaram definitivamente em um dos quartos como funcionárias da fazenda, ajudando Nêga, era um refúgio confortável pra Belize; a comida de Nêga a fazia lembrar de tempos imemoriais em que, criança, se esbaldava no tempero de sua mãe.
Nilo ouvia tudo em silêncio. Quando Belize terminou girava compulsivamente a aliança no dedo. Tirou-a. Nilo ignorou o gesto.
- Você tem razão. Não importa o que tenha acontecido a Grilá, essa aliança não devia mais estar aqui. - apertou a aliança na mão direita e, olhando pra Nilo, arrojou-a longe, na escuridão da chuva. Ele seguiu com o olhar um suposto trajeto da aliança no ar até se perder na escuridão. Quando virou-se novamente para Belize foi surpreendido por um quente beijo. O cheiro dela parecia se apossar de cada alvéolo dos pulmões de Nilo.
- Eu tive tanto medo que não viesse...
Nenhum som ou reflexo na escuridão denunciou onde havia caído o pequeno aro dourado incrustado com uma delicada e brilhante alexandrita. A chuva cobriu-o imediatamente.


Abduzidos: Dante Ixo[4:29 PM]

[ Sábado, Novembro 12, 2005 ]

 
Capítulo XVII - DESCAMPADO EM ILHA DO MONTE
Belize entrou no quarto guiando Nilo e fechou a porta em seguida. Vestia uma longa camisola branca, transparente, os mamilos saltando sob o tecido. Tinha os cabelos presos no alto da cabeça, num coque improvisado com um lápis de olho. Nilo olhou para a pequena cama, o lençol ligeiramente amarrotado. Belize fechou a porta atrás de si:
-Quer tomar um banho antes de dormir, é claro... - Ergueu o queixo fechando os olhos enquanto desfazia o coque, balançando de leve a cabeça. Suspirou. Nilo viu reluzir a aliança na mão esquerda, quando soltava o lápis do cabelo, de olhos fechados, e baixou os olhos. Um fio de ódio subiu pela espinha até a garganta onde estacou. Uma voz engasgada escapou de sua de sua boca, com um menear de cabeça:
-Estou mesmo exausto... Mas quero.
Belize tirou de uma velha cômoda uma toalha vermelha e colocou-a na cama. Nilo tentava desviar o olhar da aliança, mas era atraído para ela quase magneticamente. Belize percebeu. Nilo apalpava a toalha, já no ombro:
-Quando terminar, eu venho aqui pra conversarmos. É a última porta à esquerda antes da cozinha.

Nilo, remoendo a aliança nas delicadas e firmes mãos de Belize, esfregava com força o pescoço e as pernas. Não sabia mais porque tinha vindo. Esperava que nem uma tênue marca clara indicasse ter existido ali uma aliança, já que Belize ligara uma semana antes marcando aquele encontro. Uma semana de sol apagaria uma aliança, e a lembrança dela impressa na pele, pensou. Mas se não era pra irem juntos embora pra algum lugar, longe daquilo que pensaram errado, porque seria? Outra das escapadas dela...
Desde que escolhera Grilá, duas vezes Belize aparecera em Ilha do Monte, com grandes malas, dizendo que ficaria por muito tempo. Hesitava em falar na razão e na data em que iria embora. Às vezes dava a entender a todos que não iria mais voltar e, uma noite, disse a Nilo com todas as letras que escolhera errado. Estranhas palavras. Dissera que Grilá era um escravo de seus próprios interesses, e para ela pouco sobrava. Compreensível para quem soubesse da estranha necessidade que muitas vezes sentia de ser o centro das atenções. Tudo que ele prometera, ela dissera, sobre uma vida de liberdade vivendo um para o outro: uma idealização da sua cabeça. O que ele tinha era o dinheiro de mandar ir e fazer e buscar e trocar e deixar entrar quem quisesse onde ele quisesse. Qualquer lugar - repetia.
Quando aquela noite ia adiantada, os dois estavam deitados de costas na traseira da caminhonete, num descampado alto e regular no meio de um pasto. Belize levantou-se e foi procurar as taças que estavam jogadas sobre uma moita espessa de capim-gordura. Ensaiou um brinde, mas Nilo não se moveu. Continuava deitado de costas em silêncio, vestindo uma jaqueta clara e surrada, os braços cruzados sobre o peito. Belize tocou-lhe a perna, sentada na tampa traseira aberta e bebericou o vinho ruim. Transpirava álcool e recendia sexo. Nilo imóvel, olhos fechados e bêbado, fingiu não ver. Ela deitou-se outra vez, na posição em que estava, deixando as pernas penderem do lado de fora. Esticou a mão até tocar-lhe o queixo e disse:
-Não quero mais ele. Às vezes sinto que ele está no futuro, embora as ordens dele continuem regendo o seu mundo e por conseqüência o meu ao lado dele, e seu corpo caminhe pela casa, hora gracejando, hora pensativo, hora com um copo de wisque na mão ou ao telefone, hora com flores pra mim. Aquele demônio... Mas com mulheres, Nilo, ele não se importa. O que há de corrompido ali, não alcançou a castidade. É um cão. Por isso é fiel.
A mão de Belize pendeu bêbada, desistindo do afago. Também queria fechar os olhos. Nilo ruminava aquela declaração de amor torta, aos dois ao mesmo tempo. "Não quero mais ele, não quero mais ele" - repetia mentalmente as palavras dela. "Então era só uma questão de querer? Hoje quero, amanhã enjoei, não quero mais? Assim?"
Belize tornou a levantar e abriu o carro, trazendo de lá um grande cobertor. Não ia dirigir pelo pasto alto sem Nilo, e ele estava bêbado demais até pra ouvir. Queria fechar os olhos também.
-Como você é egoísta Nilo. - suspirou puxando o cobertor e cobrindo os dois.
Acordaram com o vaqueiro, a cavalo, parado ao lado deles, com um boné do MST carcomido enfiado até a testa:
-Ô Nilo. Ô Nilo! Quê que cêis tão fazen'aqui essas hora? - inquiriu o vaqueiro já percebendo a resposta nas duas garrafas apoiadas no pneu traseiro - Em tempo de pegá uma peneumonia braba dessas aí, qué'ssa lubrina da madrugada. E essa menina aí? O pai dela deve de tá caçan'ela! - não reconheceu Belize, com os cabelos jogados sobre o rosto, deitada de lado e encolhida.
- Tô saindo, tô saindo, Borracha. Abre a porteira pra gente lá, abre. Depois te pago uma na rua. - Esfregou os olhos tentando sorrir, mas ainda preso aos lençóis de Morfeu. O vaqueiro desceu pela parte mais íngreme do descampado e abriu a porteira antes que Nilo ligasse o carro. Quando passaram pela porteira, Belize ainda enrolada no cobertor no banco do carona, Borracha acenou com um grito:
-Tá devendo uma, heim, folgado!
Belize abriu os olhos e fitou Nilo, piscando devagar:
- Seu frouxo! - Nilo riu - Nem me querendo como me quer, mesmo tendo fragilizada, sob o mesmo cobertor que você a noite inteira e sentindo que eu também queria, você fez alguma coisa. Você sabe lutar por alguma coisa que quer Nilo?
Nilo riu e esse último riso foi se desfazendo devagar, sob o olhar de Belize, até se transformar em pura desolação. Entraram nos limites da cidade em silêncio e foram dormir outra vez, cada um em sua casa. Não obstante, ainda naquele dia, meses atrás em Ilha do Monte, à noite, Belize conseguira o que queria e fizeram amor na garagem da casa de Mirim e depois na cama dura de Nilo, ao amanhecer. Nilo esfregava com força os cabelos pensando nisso. Seus olhos ardiam e saíram do banho vermelhos como a toalha com que, sentado já na cama, enxugava os cabelos. O assoalho rangeu pelo corredor, avisando que Belize retornava ao quarto. Nilo respirou fundo pela primeira vez desde que chegara e dirigiu-se à porta, para abri-la antes que fosse preciso Belize bater.

Abduzidos: Dante Ixo[4:41 PM]

[ Quarta-feira, Julho 20, 2005 ]

 
Capítulo XVI - PENSÃO DA NÊGA.
Cruzaram as altas mangueiras do vasto quintal à frente do casarão. Nilo levantou os olhos e leu a data da construção da casa, no alto da entrada principal: 1863. Contou doze janelões na fachada, pintados de azul-turquesa, antes de cruzar a porta e subir as escadas. A madeira rangia sob os pés e Mirim pisava pesado:
-Era aqui debaixo dessa escada que eles prendiam os negros fujões, Nilo.
-E você já esteve aqui antes?
-Uma vez, seis meses atrás, com Belize. Pouco antes dela enlouquecer e ir atrás de você em Ilha do Monte -parou diante de uma mulher gorda, com olheiras fundas e um sorriso amarelo, que abriu a porta de repente. Vestia um camisolão verde-claro de seda que ia até abaixo dos joelhos:
-Mirim! Você eu não esperava!
-Aposto que Belize também não.
Aos pés da escada por onde subiram apareceu uma figura magra, rosto chupado, segurando uma espingarda. Em seguida outra cabeça apareceu atrás da mulher, de uma porta. Os olhos cheios de sono.
-Cert'aê, mãe?
-Certo, Zé, pode voltar a dormir. O senhor também, seu Cláudio -disse esticando o pescoço para ver o homem com a espingarda aos pés da escada. O homem da porta recuou, fechando-a novamente. -Entrem. Belize acordou com o sino, se é que ela dormiu.
Os passos vindos do fundo do corredor, macios, acalmando o ranger das tábuas, fez saber que Belize estava vindo. Nilo sentara-se de costas, olhar fixo na porta por onde entrara. Ouviu os passos, mas não se virou. Ela entrou e abraçou Mirim, que estava de pé junto à janela. Caminhou até Nilo e tocou-lhe os cabelos. Ele se levantou e abraçou-a. Ela segurou-lhe a mão, olhou para a mulher gorda e guiou-o corredor adentro. Mirim fez menção de seguir-lhes, mas ela virou-se, séria:
-Dorme, Mirim. Amanhã falamos. Já é tarde.
Ele ensaiou retrucar, ela virou-se e continuou, levando Nilo pela mão. As mãos agora estavam quentes. Sentiu suarem. Belize apertava carinhosamente, esfregando o polegar contra as costas da mão de Nilo. Mirim seguiu a gorda até outro quarto e um segundo depois voltou, lembrando-se da mochila que Nilo abandonara ao lado da poltrona. Levou-a para o quarto, despiu-se e deitou-se de costas, deixando a mochila sobre o criado-mudo, na cabeceira. Não tardou para se levantar outra vez. Esvaziou a mochila de Nilo sobre a cama, colocou o 22 na cabeceira e começou a contar o dinheiro.


Abduzidos: Dante Ixo[3:55 PM]

[ Domingo, Julho 17, 2005 ]

 
Capítulo XV - O RIO
A pensão era uma grande casa colonial do outro lado de um rio. Um empregado fazia o translado de quem chegasse, num pequeno barco a remo pintado de vermelho e preto que, agora, se encontrava amarrado à outra margem, sem o barqueiro. Um sino pendia num ingazeiro, sinalizado como "campainha". Nilo saltou primeiro do carro, afoito até seus pés tocarem o chão. Estacou, controlando-se. Sentia as mãos trêmulas e frias, parte pela chuva que continuava a cair, bem mais rala Enfiou-as no bolso da jaqueta. O casarão se erguia escuro como a noite, a certa distância, duas janelas acesas nas extremidades opostas. Nilo correu os olhos pelo rio. No meio, a correnteza borbulhava encardida e nas margens a massa marrom de água e lama ia lenta, quase que pastosa. Nas margens o rio parecia ter preguiça. Mirim já caminhava a passos largos em direção ao sino, com a mochila de Nilo às costas e a bolsa na mão. Observou surgir uma figura numa pequena guarita de madeira, jogando sobre o corpo um plástico, mas fez soar o sino ainda assim. O gongo ecoou no silencio, três vezes rápidas. Uma janela a mais se acendeu e Nilo mirou a silhueta que a abriu. Andou até sob o ingazeiro enquanto o barqueiro corria o barco correnteza acima, na outra margem; aproveitava assim a corrente, descendo em diagonal na travessia. Mirim apoiou a bolsa no pé e trocou a mochila de braço. Nilo fechou os olhos, cansado; ficou assim até ouvir o barco bater no precário píer de madeira escura.
O barqueiro não disse nada além de "noite", ao que Mirim respondeu jogando bolsa no barco, como se tivesse uma tonelada de cansaço. Nilo subiu em seguida, silencioso, e o barqueiro recomeçou a marcha margem acima antes de jogar o barco ao outro lado. Saltaram, metendo os pés na lama da margem. Nilo pegou a mochila das costas de Mirim, e recebeu um olhar desaprovador. Ignorou-o. Belize estaria ali? Estivera ali? Que horas seriam? Grilá saberia onde ela estava? Onde Grilá estaria? Porque ali? Porque não voltou Belize para Ilha do Monte? Como Mirim o encontrou naquela estrada?
-Você vai ter que pedir desculpas ao Cigano quando chegar em Ilha -Mirim falou, reduzindo o passo pra que Nilo o alcançasse -Quebrei um braço dele pra saber onde cê estava.
Nilo não respondeu, olhou pro vazio pensando que agora tinha uma pergunta a menos. Mirim regozijou por dentro, sentindo sua valentia aflorar. Primeiro cigano, ainda aquela noite, o velho.
-Isso é problema seu. Eu não vou voltar pra Ilha do Monte. E... Você sabe porque chamam ele de Cigano. Problema seu.
-Bahhh. Aquilo é frouxo rapaz. Tava armado e não vi nada dessa coisa que falam dele com uma faca. Tava lá, tranqüilo, peixeira na cintura. Bem que podia, mas nem reagiu. Aquilo é frouxo, te digo.
-Mirim, quero descansar cara. Me deixa em paz com esse papo furado.
-Foda-se o que você pensa.
-Não penso nada, só queria era saber o que você veio fazer atrás de mim.


Abduzidos: Dante Ixo[9:18 PM]

[ Sexta-feira, Abril 22, 2005 ]

 
Capítulo XIV - UM POUCO DE CHUVA
A placa minúscula que acabavam de passar dizia faltarem 36 km até a pensão da Nêga quando começou uma chuva torrencial. O tempo havia fechado bruscamente e a visão da estrada de chão embaçou-se rápido. Poças grandes e fundas se formaram nas valetas e aqui e ali corria um rio atravessando a estrada. Nilo tinha o coração na boca. Mais perto, mais perto, mais perto e logo ali adiante estaria Belize e algo de ruim que Mirim apenas comentou. Nilo insistiu e ele teimava em dizer que não sabia ao certo. Imaginava o tamanho da encrenca que faria Belize estar assustada. Para Nilo ela era intrépida, destemida. Se decidira por deixar Grilá, não faria isso com medo; nem temeria ameaças. Mirim comentou algo sobre esse medo; parecia mesmo não saber mais nada além disso.
-Quanto tem na bolsa de dinheiro? -perguntou Mirim. Nilo fez sinal negativo com a cabeça. Não conseguia nem pensar em dinheiro. Olhava pro marcador esperando correrem os quilômetros, fixamente.
-Rapaz, vc é um cagão. Um grande cagão! -Mirim falava demonstrando estar mais calmo; continuou:
-E o velho heim?! Que susto não deve ter levado aquele filho da puta! Há há há há !
Nilo seguia concentrado, ou disperso, não dava pra ver. Ouvia nada, dizia nada, fingia entender o que Mirim dizia acenando com a cabeça "Sins" e "Nãos", mas estava longe.
Que diabos estava acontecendo? Imaginava coisas confusas, tentava desencadear na cabeça os fatos buscando sentido e não via nenhum. Mirim falava, esticava-se nos detalhes sobre a cara de dor e medo do velho caído, sendo chutado. Espraguejava sobre seu revólver, ria de sua entrada no boteco com arma em punho, se fingindo policial como nos filmes. Nilo lembrava Belize, Belize, Belize...
"-Nilo, você é um rio atravessando meus mistérios e desertos..." -olhava pra fora, pra chuva cuspindo gotas do chão ao bater. A estrada já era também um rio, como ele. E Belize a praia onde ele descansaria ou seria tragado pelas ondas.
A estrada corria e a chuva soava no teto do carro, batendo com violência no para brisas, como se passassem por dentro de um grande lava-rápido esburacado e escuro.
O velho jazia inconsciente, do álcool e da surra, algemado ao pé da cocheira como Mirim o deixara. A chuva ficava cada vez mais forte e as poças avolumavam-se pelo terreno todo; um alagadiço baixo, quase um brejo. Estava imóvel e na escuridão. Não havia luz que refletisse as gotas respingando ao baterem no mato, no chão, no velho.



Abduzidos: Dante Ixo[5:54 PM]

[ Sexta-feira, Abril 08, 2005 ]

 
Próxima semana, um novo capítulo. Será?
...

Abduzidos: Dante Ixo[4:15 AM]

[ Domingo, Fevereiro 13, 2005 ]

 
Capítulo XIII - ATRÁS DO VINTE E DOIS
Nilo contou rápido a história toda, vendo faiscar os olhos de Mirim. Manobrou o carro dando meia volta:
-Vamos buscar meu vinte dois agora mesmo! Passei pelo filho da puta não faz nem 20 minutos, na estrada.
-A gente não pega ele antes de entrar de volta na cidade. E ele está armado e nós não.
-Quem disse? A cidade é do tamanho de um ovo de codorna, Nilo. Meu vinte e dois premiado não vai ficar com um bêbado sujo e ladrão -acelerou o carro saltando os buracos da estrada.
Nilo só queria encontrar logo Belize e acabar com aquilo enquanto Mirim afundava o carro na noite da estradinha, pensando em seu revólver. Nem pensou, porém, em insistir pra que Mirim esquecesse aquela arma de estimação, que ele mesmo nem lembrava mais por que diabos havia levado consigo. O carro avançava e minutos depois chegaram na cidade. No primeiro lugar onde procuraram estava o corcel velho parado: o mesmo bar onde Nilo desmaiara horas antes e de onde tinha saído com o velho. Mirim passou devagar em frente, com os vidros escuros levantados; O velho lá dentro fazia gestos largos e estava cercado por mais quatro ou cinco outros velhos bêbados. Parou uns cem metros adiante e mandou Nilo ficar no carro. Saiu e voltou dois minutos depois com o velho algemado, com as mãos para trás. Jogou o velho no banco traseiro e saiu outra vez pra voltar em seguida, já com a mochila. O velho se dirigiu a Mirim:
-Mas... Senhor... Policial... Esse é o rapaz que roubou o dinheiro. Ele estava armado e tentou me matar quando descobri tudo, mas consegui escapar dele jogando ele fora do carro e a bolsa com o dinheiro tinha ficado no banco de trás! Como eu poderia voltar e devolver o dinheiro ao próprio ladrão?
Mirim riu pra Nilo:
-Que fazemos com esse traste, sargento? -perguntou, cínico. O velhote arregalou os olhos, apavorado. Nilo gargalhou, entendendo. Mirim tinha entrado no bar, sacado a arma que levava e gritado "-Polícia, Você está preso!"
-Não sei Capitão. Vamos jogá-lo na estrada lá onde ele me deixou e já está bom pra esse diabo.
-A mim não basta. Esse filho da puta ainda merece menos que isso. A gente podia achar um rio e jogar ele dentro, assim algemado. Se ele merecer viver, Deus o salva. O velho empalideceu. Nilo entendeu como uma galhofa apenas, mas percebeu que não quando Mirim entrou por uma estradinha estreita e periférica. Saltou do carro arrastando o velho para fora pelos cabelos. Mirim estava disposto a descontar a sua fúria e jogou-o no chão com brutalidade. Nilo assustou-se. Mirim apontou a arma. Dizia impropérios e chutava o velho caído. O homem gemia e chorava, pedindo por favor, como um covarde. Mirim chutava mais, com a arma apontada. A cada chute ele se encolhia e chorava mais, deixando ver os dentes enferrujados, até perder as forças. Quando o velho desmaiou, Nilo já prestes a interceder, por pena, Mirim arrastou-o, saltou a cerca, puxou o homem desfalecido por baixo e algemou numa cocheira:
-Aqui eles acham ele amanhã... Quando já estivermos longe daqui.
-Mas ele sabe pra onde vamos, Mirim; ele estava me levando até lá.
-Que ele pode fazer? Chegamos à pensão da Nêga, pegamos Belize e vamos pra um lugar seguro. Ou acha melhor... Matarmos ele?
Nilo apressou-se em negar a idéia; já tinha visto que Mirim estava fora de si:
-Vamos logo, Mirim, encontrar sua irmã e dar o fora.
Mirim balançava a cabeça para cima e para baixo, apertando o volante com as mãos:
-Nilo... Acho que Belize fez uma coisa terrível. Estamos todos os três agora metidos até o pescoço numa merda sem tamanho. Espero que você esteja preparado pro que lhe aguarda mais adiante... Ela ligou pra mim há algumas horas... Deixa. Ela te conta quando chegarmos lá. Faltam poucos minutos agora.


Abduzidos: Dante Ixo[3:32 PM]

[ Quarta-feira, Dezembro 08, 2004 ]

 
Capítulo XII - ORAÇÃO DE SÃO MARCOS

Depois de caminhar pela escuridão e cruzar novamente o ponto em que a estrada ficava estreita e escura no meio da mata, entre os ruídos estranhos do negro volumoso que cobria tudo, chegou à estrada principal outra vez. Não tinha andado mais que trinta minutos. Sentou-se um momento, ainda sem saber pra que lado deveria seguir. Estava tão distraído quando passou por ali que não conseguia ter certeza. Procurou pelos cigarros no bolso da calça e não encontrou. Enfiou a mão no bolso da camisa e ao invés do cigarro, encontrou um pequeno embrulho de pano, como um patuá, do tamanho de uma castanha. Dentro, enrolado e garatujado dos dois lados estava uma oração, ou um feitiço, não sabia bem:

"Meu São Marcos da Orelha Parada morador da pedra preta, amansai o coração desse que ficará bravo feito bicho. Meu São Marcos, tu que amansaste cobra, leão e serpente, amansai o coração desse que ficará bravo feito o diabo. Dá-me poder sobre essa pessoa que não é mais do que Deus, porque quando nasceu, Jesus Cristo nascido era. Nasceu no céu, nasceu na terra e nasceu no coração dessa pessoa, para eu fazer dele o que quiser. Essa pessoa está amarrado, acorrentado em baixo do meu pé esquerdo. Não há de comer, não há de beber, não há de dormir enquanto comigo não vier estar e não me der tudo o que eu preciso. Amém."

Nilo decifrou os garranchos duvidando, louco por um cigarro. Estava sendo perseguido por rezas? Os cigarros tinham ficado na bolsa. Um farol apareceu longe, se aproximando; Nilo ficou feliz; Pelo menos descobriria pra que lado deveria seguir andando, se não lhe desse carona. Tudo certo. Tudo daria certo. Não fosse pelo revólver de Mirim e não tinha perdido nada seu além de roupas sujas. O dinheiro, tanto fazia... Mentira... Pensava sim que com aquela grana talvez pudesse comprar uma casinha na praia pra Belize, e ela ficaria perto do mar que tanto amava. Já estava fazendo mesmo planos pro que tirara dos malotes na cena da explosão... Mas tanto fazia! -repetia pra si mesmo. E ainda tinha cem, do que tirara da bolsa no banheiro do boteco. Aquele velho safado tinha mexido na bolsa, no desmaio -remoia. O carro aproximava-se e a alegria de Nilo foi minguando e transformando-se em tensão. O som do carro familiar. Passou por ele mas parou em seguida, bruscamente, voltando de ré. O vidro baixou e Nilo ouviu o motorista, entre cínico e bravo:
-Você só me dá prejuízo e trabalho! Entra ai, filho da puta, e vamos logo encontrar minha irmã; acho que você não sabe o tamanho da encrenca em que se meteu -fez uma pausa e ouviu-se as trancas abrindo -Antes, só me passa meu vinte e dois premiado!
Nilo olhou pro nada e entrou no carro, tentando inventar rápido uma história convincente que o safasse. Riu de si mesmo com uma idéia boba que lhe veio: devia colocar o patuá no bolso de Mirim e ver se funcionava tão bem quanto para o velho que levou-lhe as coisas.


Abduzidos: Dante Ixo[2:59 AM]

[ Sexta-feira, Novembro 26, 2004 ]

 
Capítulo XI - MEIA-NOITE E CINQUENTA E SEIS
O silêncio da estrada era cortado pelo barulho de um caminhão carregado de madeira, possivelmente ilegal. Nilo saiu de sua distração, estava ansioso. Balançava-se mesmo com o rádio tocando uma musica de bordel, baixinho. Tudo no carro recendia a álcool ou gasolina. Passaram rápido por um pequeno matagal, onde a estrada de chão se estreitava até tornar-se uma caverna verde, com galhos baixos que não deixariam passar os caminhões de madeira. A estrada tinha piorado, da encruzilhada pouco antes em diante, e não parecia mais que um trilha de enduro. As pernas balançando ansioso; percebeu que o motorista também parecia balançar-se igualmente:
-Fazem o que...? Uns quarenta minutos de estrada? Essa viagem parece que não acaba nunca pra mim -suspirou e constrangeu-se de ter pensado alto. Não queria dar papo ao velho e suas conversas do santo da orelha cortada ou sei lá o que, mas queria mesmo ouvir-lhe dizer que estava quase chegando. Sempre algo errado. Falta muito? -o velho passou os olhos no relógio do painel; estava parado em 12:56 hs. Nilo riu:
-Até esse relógio funciona perfeitamente duas vezes por dia, porque meus planos não funcionariam?
O velho meneou a cabeça como concordando:
-Talvez esteja fazendo planos grandes demais pra um garoto da tua idade. Mais do que você pode carregar... E você também não é um relógio, menino...
O carro chacoalhava nos buracos e lombadas; não estavam a mais de cinqüenta por hora. O velho estava estranhamente quieto, mesmo sendo chamado à conversa. Nilo arrematou a pergunta:
-Daqui pra frente só piora? -disse, referindo-se a estrada, depois de bater violentamente com a cabeça no teto ao passar por uma valeta. O velho riu uma risada nervosa e bêbada. Guiou os olhos mais adiante numa pequena porteira e o carro solavancou e parou bruscamente:
-Depende do ponto de vista. Me ajude aqui fora -disse já saindo do carro e abrindo o capô; Nilo o seguiu. O velho continuou:
-Depende mesmo do ponto de vista se daqui pra frente piora ou melhora, e você é quem vai decidir.
Nilo assombrou-se com o vinte dois de Mirim na mão do velho, apontado pra ele.
-Agora você vai ali pra aquela porteira e sente-se nela, menino. De costas, já!
Embora ainda bêbado, o velho era firme e Nilo estremeceu. Idéia de jerico! Pelo canto do olho, sem se virar, acompanhou o velho voltar de costas e entrar no carro, ainda de arma apontada. Manobrou o carro e saiu em disparada pelo mesmo caminho que haviam vindo, levando a mochila e a arma de Mirim que ele já nem sabia mais porque tinha inventado de levar, senão por medo de Grilá. Ah, Belize, sempre encontrando dificuldades que interpor aos dois. E quanto mais longe ia, mais longe parecia dela e não chegava. Dois dias pareceram seis meses e Nilo estava cansado e triste outra vez, chegando e encontrando o bilhete com mais distâncias a cruzar. Agora não sabia onde estava mais. Teria que voltar até a encruzilhada, uns cinco minutos atrás na estrada, e de lá tentar se localizar. Precisava aceitar também que tinha feito outra burrada e começar a andar. Belize o esperava, ou outro ladrão, ou outro bilhete. Seguiu pelo escuro adentro a passos largos e cantarolando por dentro, resignado e entregue, uma canção que vinha com a cena junto; Elvis num barquinho, vestido de marinheiro, requebrando-se segurando um violão enquanto os outros remavam em coro: -Easy come, easy go...


Abduzidos: Dante Ixo[4:06 PM]

[ Segunda-feira, Novembro 08, 2004 ]

 
Capítulo X - CIBALENA
-Tem um analgésico?-esbarrou num bêbado, ou o contrário. O balconista não entendeu, Nilo continuou:
-Um remédio pra dor de cabeça, sabe?
O homem fez pouco; deu de ombros como se soubesse desde antes:
-Cibalena?
Assoprou na cabeça de Nilo que não se fabricava mais Cibalena, desde os anos oitenta, por causa dos barbitúricos da fórmula. Não disse nada. Esperou pra ver e o balconista trouxe um pequeno comprimido: um analgésico qualquer.
-Isso não é Cibalena. -disse sem muita importância. Engoliu o remédio e deu mais um gole na cerveja. Ajeitou a mochila entre os calcanhares. O balconista mirava intrigado. Quando o copo voltou pra mesa, perguntou:
-O que é isso então, se não é Cibalena?
-É outro tipo de analgésico... Tá escrito aqui, olha: "paracetamol". É um genérico comum.
O homem ficou sem graça. Olhou pra mesa ao lado, um velho sentado diante de um prato vazio. O velho disse:
-Isso ai que você disse, rapaz, é remédio pra dengue! -olhou pra Nilo, com galhofa nos olhos. O vendeiro concordou com a cabeça, parecia a decifrar a cápsula do comprimido vazia, como se ao invés de letras fossem hieróglifos na embalagem. Nilo desistiu de explicar qualquer coisa, mudou de assunto:
-E a comida, que tem ai?
-Só o que tá no balcão. Faço "amburgui" também...
-Isso, me faça um, com dois bifes, então. Sem tomate, por favor.
-Só pão e bife? -parou antes de entrar atrás do balcão.
-Não tem mais nada?
-Não.
-Pode fazer. Tudo bem.
-Veio pra procissão rapaz? É devoto de São Marcos? De qual caravana, de que cidade?
O velho perguntou, puxando assunto, já saltando pra mesa de Nilo e continuou a falar. Fedia a cachaça. Enumerou alguns milagres, falou do poder do santo de amansar corações bravios e animais selvagens. Nilo não prestava atenção. Continuava aquela dor de cabeça e parecia aumentar. A dor o deixava disperso, ia perdendo a força, pensando em Belize, preocupado com Grilá no rastro dela; dele também, por conseqüência. Tanta dificuldade em encontrá-la tão longe e agora, aquele bilhete do Hotel Flores, lhe diziam que seu medo maior era infundado: temia que Belize o houvesse chamado pra dizer que esquecesse dela, que a deixasse, que não abandonaria Grilá jamais, a despeito das cartas dizendo o contrário que enviara a Nilo... Apenas uma despedida, era o que temia. Mas com o bilhete e alguém a procura dela, certamente Grilá, significava que ela havia fugido dele. Mas pro meio do nada? Quanta dificuldade naqueles dois dias. Teriam encontrado o sargento e o cabo? Dado por falta do dinheiro? Com o carro forte em chamas e tantos destroços, duvidava que alguém sentisse falta de um único malote, por mais cheio que estivesse.
A mesa estava grudenta e suja; Nilo observou que o homem do balcão já trazia o pedido e fez menção de levantar-se; queria lavar as mãos e o cotovelo, que sujara na mesa. O velho continuava falando sem parar. Assim que ficou de pé, sentiu uma pontada forte e aguda na cabeça, sobre o olho direito, e desmaiou. Não percebeu quanto tempo ficou apagado ali no chão da espelunca e quando abriu os olhos estavam sobre ele o velho, exalando álcool bem perto do seu rosto, e o balconista. Levantou tonto, limpando a poeira. O velho o olhava diferente e ajudou-lhe a sentar-se na cadeira. Ainda grogue, passou em frente ao bar um carro que lhe pareceu familiar demais, a pouca velocidade. Ergueu-se cambaleante e caminhou devagar até a porta. Não conseguiu ver a placa à distância, mas não teve dúvidas. Merda! -pensou. Era o carro de Mirim. Virou-se pro velho, que estava de pé logo atrás dele:
-Quanto tempo até a Pousada da Nêga? Sabe onde é?
-Sei, oche! Uma hora, pouco mais...-Nilo interrompeu:
-E táxi, onde tem?
-Ih... Essas horas só lá na rodoviária -apontou pro lado em que tinha ido o carro que Nilo havia visto há pouco.
Era o jeito. Nilo pagou com a última nota de dez que sobrara depois do menino da bicicleta, e deixou as altas no bolso. Já saia quando o velho bêbado se acercou:
-Se quiser te levo lá, mais barato que o táxi.
Nilo recusou e andou alguns metros, mas voltou atrás. Era possível que Mirim vigiasse a rodoviária ou houvesse deixado alguém lá pra fazer isso. Teria problemas se isso acontecesse.
-Vamos lá -acenou para o homem, a distancia. Ele sorriu, mostrando dentes velhos e gastos.
-Pode ficar tranquilinho, que eu dirijo muito bem. Comigo está seguro -deu um tapa de leve no braço de Nilo.
Entraram num Corcel LDO arruinado e saíram. O velho retomou o falatório sobre o santo, como se não tivesse fim; como uma ladainha sendo ensaiada para a procissão do dia seguinte...


Abduzidos: Dante Ixo[9:21 PM]

[ Segunda-feira, Outubro 25, 2004 ]

 
Capítulo IX - HOTEL FLORES
Nilo entrou na cidade pelos fundos na noite de sete de setembro. Encontrou ainda vestígios do desfile daquela manhã. Muitos bêbados, botecos, rastros e estrume de cavalos por toda parte. Bandeirolas e confete eram carregados pelo vento nas ruas, e tudo isso dava a cidade à impressão de um grande latão de lixo, como nos dias seguintes as eleições. Alguns membros da banda da cidade faziam barulho perto da entrada do hotel Flores; Um trombone e um prato; Um rapaz dormia sobre um tambor, babando na pele, bêbado.
Atravessou o marco hotel adentro e perguntou por Belize. O rapaz disse não saber; afastou-se e saiu dos fundos uma moça loira, que ouvia de costas a conversa, disfarçando:
-Ela mandou te dar isso -disse estendendo um envelope e olhando para os lados, como para ter certeza que o rapaz não a vira fazendo.
O coração de Nilo disparou. Teria ido embora? Estaria assim tão atrasado? Perguntou as horas; Vinte e três e doze, respondeu a moça. Pegou o envelope e afastou-se do balcão pra ler:



O envelope não estava fechado, mas havia sido usado antes e estava selado e carimbado, com um nome desconhecido no remetente, do primeiro uso. Podiam ter lido? Arriscou, voltando ao balcão:
-Alguém mais esteve aqui perguntando por ela?
A moça preparou-se pra falar, mas o rapaz interrompeu:
-Vais querer um quarto, senhor?
-Não, ainda não... Apenas me diga: veio mais alguém aqui atrás dela?
Olhou pra moça, ela desviou o olhar. O rapaz disse que não. Nilo desistiu.
O importante era que sabia onde encontrá-la... Era grilá, certamente. Ela devia ter sido seguida quando fugiu dele, supôs. Sentou-se na poltrona em frente ao balcão e esperou por uma distração do atendente. Quando ele entrou um segundo, atravessou por baixo e foi aos fundos, onde via a moça de costas. Ela se assustou, ele a encurralou num canto:
-Olha moço, não sei quem é o homem que veio aqui atrás dela mais cedo. Ele falou com meu irmão só e não sabia do bilhete, então...
Nilo interrompeu:
-Alguém mais leu?
- Não. Estava aqui, ó -Disse mostrando o decote -Ninguém viu, pois ela me pediu assim...
Nilo não agradeceu, virou-se e saiu. O peso do dinheiro na bolsa estava cansando e a dor de cabeça não parava. Precisava beber algo, antes de seguir viagem. E comer também. Entrou no banheiro da primeira espelunca que encontrou e procurou trocados na bolsa. Nada. Apenas cinqüenta e cem... Pegou três de cinqüenta e fechou a bolsa.
-Aquele magrelo da bicicleta deve ser mesmo ouvido por Deus...
Agradeceu a oração, em pensamento. Deixou duas de dez e recebeu como recompensa tantas e tantas de cinqüenta... -Deus é justo! -pensou, deixando escapar um sorrisinho no canto da boca. Saiu do banheiro e pediu:
-Que tem pra comer ai, companheiro...? -não esperou a resposta e continuou:
-Trás uma cerveja enquanto isso.


Abduzidos: Dante Ixo[6:15 PM]

[ Domingo, Setembro 12, 2004 ]

 
Capítulo VIII - ENFARTO, POLITICAGEM E FUTEBOL
Duas horas e nada. Três horas e nada. Mirim saiu atrás de Roberval. Não estava em casa. A mãe, octogenária e curvada pelo peso do oito repetiu a história da pescaria com Nilo. Na versão dela, ninguém tinha voltado ainda; nem seu filho Roberval. Mandou Mirim atrás de Cigano, que ele devia saber melhor. Estava sem saída. Tinha sido idiota em cair na conversa do malandro. Tinha, no fundo, muita vontade de ter o tipo de respeito que o cunhado tinha; Grilá não aceitava conversas. Isso ou aquilo, sempre pegava pesado com quem lhe enrolasse. Quem teria coragem de não fazer o que ele dizia, exatamente como ele dizia? Uma mistura de medo e resignação diante da própria impotência era o que o sentia Mirim. Onde Grila punha a mão jorrava dinheiro; vez ou outra jorrava sangue também, como é natural. Violento, nada compulsivo, seco, de uma só palavra. Chamou um helicóptero em 30 minutos, vindo de Barranco, uma vez; No meio de um jogo de futebol. Tesoura, o técnico do time dos alvirrubros Ilhados do Monte, teve um infarto fulminante sob o sol das duas, quando o artilheiro do time numa discussão com o juiz, faltando-lhe fôlego e argumento pela correria da partida, arrancou da cueca uma latinha de fluído para isqueiro e tocou fogo na bola. Por causa de um pênalti. Grilá, que já visitava a cidade há algum tempo e se dizia torcedor do Ilhados correu em socorro do técnico, chamando o helicóptero. Tesoura escapou com a mesma rapidez que teria morrido se Grilá não ajudasse. Ligou direto pro senador Bardo Lira que chamou o serviço de socorro oficial. O povo correu pra ver o helicóptero pousar no gramado, assim que a notícia correu, ou seja: em minutos. O técnico foi atendido como um ministro, num hospital de São Paulo e Grilá passou a ser alvo do assédio de todos os comerciantes, políticos e fazendeiros de Ilha do Monte. Ninguém, nenhum dos importantes de Ilha, tinha tal acesso ou privilégio de falar com Bardo Lira pessoalmente - e arrancar-lhe algo. O prefeito, quando muito, conseguia mandar uma ambulância levar a um hospital particular 300 Km dali e pagar a conta. Convinha trazer pra perto Grilá, pensaram todos ao mesmo tempo. Em seguida passou a ser convidado para todos os churrascos, casamentos e formaturas e fazendo favores a todos eles. Fora de Ilha do Monte e dentro da cidade. Arrumou empregos, fez recomendações, manipulou sentenças, deu presentes. O povo sabia pouco dele; apenas que ele era filho de um importante minerador e herdeiro de todas as minas de alexandrita da Bahia, o que estava claro na sua mão direita, pelo anel com uma gema maior que um olho de galinha; Influente, poderoso, estudado, corajoso, rico, personalidade forte, inteligente. Era o que pensavam dele todos, mesmo os que não se agradavam dos seus métodos. Como todos lhe deviam favores em pouco tempo, ele trocava os favores de uns pelos outros e muita gente ganhou dinheiro. Num desses momentos de entrosamento com os ilhenses mostrou pela primeira vez até onde ia seu poder de persuasão: aceitou um convite para uma pelada no clube, coisa que gostava, e numa bola presa quebrou o nariz do delegado Miranda, antecessor de Jaceguar, com uma cotovelada covarde. O delegado arrancou-se pingando sangue e pegou a arma sobre o banco à beira do campo. Antes que tirasse do coldre havia dois mal encarados com pistolas encostadas na sua cabeça. Grilá mandou abaixarem as armas e disse:
-Desculpe, Miranda. Calculei mal. Não era pra ter sangrado assim. Você me fechou na jogada e eu virei de repente... Amanhã, certamente, já vai estar desinchado.
O delegado enfurecido com o escárnio mandou prenderem Grilá e os dois capatazes, mas não ficaram nem uma hora na cadeia.
Depois convidou Miranda pra ir ter com ele no Sítio que comprara, no fim de semana. O delegado estava falando muito dele pela cidade e embora estivesse preocupado, aceitou e espalhou pela delegacia que iria lá tirar a limpo. Na semana seguinte, quando Miranda chegou à delegacia, estava com a mão enfaixada e falando pouco. Quando o soldado Cleyro, seu braço direito, lhe perguntou sobre o encontro no sítio de Grilá que ele mesmo havia alardeado na semana anterior, foi esquivo. Disse que conversaram, mas que não ia mexer com Grilá, que era complicado. Dois dias depois apareceram seis agentes federais e mais um punhado de soldados e prenderam Miranda. Havia alegações de suborno, crime de mando, formação de quadrilha, acobertamento de roubo de gado e nos inquéritos realizados na cidade, as provas choveram. Não faltaram informantes e denunciantes aos federais. Grilá não apareceu na cidade naquela semana nem na seguinte e enviaram da capital o delegado Jaceguar como substituto. O soldado Cleyro mudou-se de Ilha do Monte com a família logo depois, transferido junto com mais quatro homens de confiança de Miranda pra lugares bem distantes. Um deles foi mandado pra Fronteira, no Acre, no meio da selva. Meses depois, Jamiro Barbeiro encontrou com Miranda na cadeia de Barranco, durante uma visita a um de seus dois irmãos assassinos e contou o que viu a toda cidade, na volta: Grilá tinha arrancado fora três dedos da mão direita do delegado; o indicador, o polegar e o mindinho. Foi o que soube Jamiro pela boca de Miranda. O que não soube era o que ficava martelando na cabeça de Miranda quando olhava a mão esfacelada, junto com o sentimento de impotência: as palavras de Grilá enquanto cortava-lhe os dedos devagar, com um canivete de cabo de osso.
-Segura agora um revólver, Miranda, e aponta pra quem você não conhece! Segura, vai! Tô lhe deixando dois dedos, pra você assinar seu depoimento delegado, com um xis já que não vai ser fácil, quando te chegar a hora. E chame mais gente pra te ajudar, chame os federais. Vamos ver quem acorda melhor no dia seguinte.
Mirim, lembrando disso, desejava ser como o cunhado. Desejava mais ainda que Nilo não tivesse mesmo ido atrás de sua irmã Belize -aquela louca. Resmungava consigo. Fatalmente sobraria pra ele, que tanto recebeu de Grilá. Seria acusado de acobertar Nilo, de ajudar Belize... E se Grilá soubesse sobre o encontro dos dois no sítio, seis meses antes? E se soubesse que ele, Mirim, sabia que Belize planejava voltar pra Nilo e abandoná-lo e não fez nada pra impedir ou fazê-lo saber... Era isso que Grilá acharia, mas ele havia feito sim. Tinha convencido Nilo a não ser louco e não buscar a morte, mas Nilo não era tão firme em suas decisões e seis meses depois podia muito bem voltar atrás em sua covardia. Belize era a firmeza em pessoa e estava decidida. Queria deixar Grilá e ficar com Nilo -disse entrando no táxi que a levou de volta a casa de seu marido, depois que Mirim convenceu Nilo a desistir dela -assim que fosse seguro para os dois. Mirim imaginou que isso nunca aconteceria, sendo Grilá como era. De qualquer forma, Nilo conseguindo ou não, se ele tentasse tirar Belize de Grilá, Mirim também pagaria por não ter podido fazer nada.
Voltou pra casa para pegar a arma e não encontrou seu 22 na caixa, no aparador. Gritou por Elzinha alto, mas ela ainda não estava. Lembrou-se então da conversa que o cigano não completou. Entendeu a história. Se fosse Grilá, matava Cigano. Ligou a Cherokee e partiu pra lagoa dos Breda, onde cigano disse que iria. Dessa vez não seria enrolado de jeito nenhum.


Abduzidos: Dante Ixo[5:55 PM]

[ Sábado, Setembro 04, 2004 ]

 
Capítulo VII - MARRECOS E PESCARIA
Toc, toc, toc!
Cigano estava nos fundos arrumando as coisas sobre um balcão de madeira, em baixo da sombra do cajazeiro, com um baseado aceso entre os dedos:
-Quem é? -gritou sem sair do lugar. Mirim se identificou. Cigano atravessou os dois cômodos entulhados de bugigangas que o separavam da porta; nem apagou o baseado:
-E ai Mirim, sangue bom! Quê que cê manda?
-A primeira coisa é pra você apagar essa merda fedida, aí...
Cigano tragou e prendeu. Mirava Mirim com a cara de quem não ia fazer isso, enquanto prendia...
-Cof, cof... Aê, quanto mais velho, mais careta tu fica, heim!
-E você parece que nunca vai crescer e largar essas coisas de moleque. Mas faça como quiser, a casa é sua... Qualquer dia desses, delegado Jaceguar manda eles virem aqui acabar com sua folga.
Cigano continuava prendendo a respiração, com o pulmão cheio. Era alto e magro, músculos definidos e roupas gastas. Vestia uma camisa de botão aberta e quando sorria seu canino saliente brilhava. Mirim foi ao assunto:
-Cigano, Elzinha me contou que o Nilo foi atrás de Belize e que você sabe onde é que iriam se encontrar. Acho bom Me dizer ou vamos ter problemas aqui hoje.
Cigano riu, deu mais uma tragada profunda:
-Ô Mirim, você é muito crente rapaz! Vai acreditar em Elzinha? Ela tava aqui fumando um comigo e falei isso. Era só uma mentirinha, pois ela mesma me contou que Belize ligou e tal. Queria ver se ela era confiável também, porque como você sabe ela vive dando o ar de sua graça no meu quintal...
Mirim inquietou-se, andou em círculo:
-Não me venha com essa, Cigano! Nilo não foi pegar o caminhão hoje cedo e não o vejo desde anteontem, por causa do feriado.
-Calma, calma... -tragou e tossiu, meio rindo, teve tempo de pensar -a história é a seguinte: Nilo e Roberval Foram pescar lá na lagoa dos Breda e caçar marrecos. Eu não fui porque tinha um compromisso de macho, sabe? Ainda não me recuperei totalmente da canseira que a nêga me deu... Foram na minha moto anteontem mesmo e Roberval voltou ontem à tarde com a moto. Nilo ficou lá acampado até hoje de manhã porque eu prometi que chegava lá seis horas e ele podia vir com a moto pra levar o caminhão pro conserto e voltar em seguida. Essa é a lua boa dos piais. Como só tem trabalho hoje e amanhã já tem feriado outra vez, era melhor nem desmontar o acampamento e pegar o fim de semana. Quer ver o tamanho do piau que Roberval pegou? 830 gramas... Nilo deve te trazer uns peixes também...
-Olha Cigano, que papo é esse? Acha que sou trouxa?
Ele juntou as varas de pesca e começou a amarrar na moto, sob o cajazeiro:
-Mirim, não se enerve com Nilo, pois a culpa é minha. Estou indo quase nove da manhã e tinha prometido estar lá as seis pra ele vir. Desculpa aê sangue, mas ontem... Sabe como é né... Uns gorós, a nêga cheia de fogo, dormi pouco e acordei tarde. Mas estou saindo agora e te garanto que daqui a duas horas o Nilo tá aqui pra levar o caminhão e vai até trazer um peixinho pro almoço.
Mirim engoliu seco, pensou. Se o Cigano estivesse mentindo saberia bem depressa. Se assim fosse Ilha do Monte ficaria pequena pros dois. Cigano matou a última ponta do baseado, já queimando os dedos e pegou o embornal. Anzóis, varas, linha, tudo certo:
-Aê Mirim, deixa eu correr que senão Nilo não chega. E fala pra Elzinha deixar de ser trouxa e acreditar em tudo que eu falo. Sonsa. Vê bem se o Nilo é doido de se meter com o marido de sua irmã, sabendo quem é aquele sujeito? Só mesmo Elzinha. Não deixo mais ela fumar! -fez cara de escárnio, riu; Mirim pareceu acreditar, mas não pareceu achar graça.
-E porque falou isso pra ela? Essa história está mal contada...
-Ela veio com uma conversa sobre um vinte dois, seu, que estava preocupada e tal, aí inventei isso, tava doidão mesmo de uma tora. Falei assim: "já pensou se o Nilo encontra com Belize como ele disse que ia fazer?" Foi só assim mesmo.
Mirim estava ainda mais confuso e desconfiado. Cigano fechou os botões da camisa, Mirim insistiu:
-Que papo é esse de "meu vinte e dois"?
-Olha Mirim, volta pra casa e pede a Elzinha pra te contar a história direito. Ela começou, ela que termine. Daqui a pouco Nilo volta na minha moto e você pode tirar a dúvida que tiver, certo? Agora já vou indo senão nem seu caminhão sai hoje, nem eu aproveito a ceva de piais que Nilo fez lá na lagoa, com mandioca. Ele só queria pegar uns marrecos também, que lá tem muito; E eu, sinceramente, tenho pouco haver com essa história.
Cigano empurrou a moto casa adentro atravessando os cômodos e saiu com ela pela porta da frente. Trancou a porta e ligou a moto. Mirim olhava desconfiado, não sabia o que fazer. Senão o Cigano, se não fosse verdade, quem saberia onde Nilo estava? Bem, podia esperar duas horas. Voltou pra casa assim que Cigano ligou a moto e saiu. Tentou outra vez telefonar pra Grilá; o telefone continuava tocando até cair. Elzinha tinha saído.


Abduzidos: Dante Ixo[1:05 PM]

[ Domingo, Agosto 29, 2004 ]

 
Capítulo VI - CAFÉ DA MANHÃ EM ILHA DO MONTE.
No dia anterior à chegada de Nilo a Tenente Flores, Mirim acordou em Ilha do Monte bem cedo e deu por falta do barulho do caminhão; Era o que sempre lhe acordava, como um despertador. Elzinha, raquítica, de voz baixa e submissa, tirou os dois ovos quentes da água e serviu. 2 minutos cravados, como Mirim viu num filme de gângsteres. Limpou o canto do olho, atenta aos movimentos dele.
-Cadê Nilo, Elzinha? Já saiu com o caminhão e eu não acordei?
-Não chegou aqui, não, ainda.-desistiu de esperar o olhar de aprovação de Mirim pelo ponto de cozimento dos ovos e voltou pra pia. Mirim descascava uma laranja na mesa. Olhava o traseiro magro de Elzinha, com pena. Não ia mesmo nunca subir na vida uma moça daquelas, com tão pouco jeito. Errava o ponto dos ovos todos os dias, como aqueles dois ali mesmo em sua frente. Cozidos demais, dava pra ver. No dia anterior muito crus; dois dias antes, frios, porque se adiantou em fazê-los. Não tinha nem a anca nem a graça nem a esperteza que a fizesse valer -pensava.
Ela permanecia de costas. Tirava o cabelo do rosto com a mão ensaboada, desengonçadamente:
-Ele ficou esquisito depois de Belize ligar, Mirim. Olha... Eu não tenho que ver com isso não, heim...
-Como? Que dia? -a boca cheia, a laranja escorrendo pelo queixo -Como?
-Ela ligou, você não tava aqui, pediu pra falar com Nilo. Eu sei que você não gosta dessa história dela com ele, por isso não disse nada. Mas ele ficou estranho.
-Estranho como, Elzinha? Disse algo? -ela tirou outra vez o cabelo do rosto e enxugou as mãos. Mirim estava ficando vermelho. Elzinha mordia o lábio inferior; tinha medo de contar, disse.
-Anda, anda...! -já se levantando da mesa.
-Olha Mirim, o Cigano que me falou e fez eu jurar que não contava. Não vou trair ele.
-Pois vai ficar sem morada, Elzinha, se não disser agora -bufando -Só me faltava isso agora. E você vai defender o Cigano?
-O Cigano me arrebenta e não olha mais pra mim.
-Vai ficar então de galinhagem com essezinho ai e perder sua cama aqui nessa casa, vai? Pois bem. Se o Cigano sabe vai ser ele mesmo que vai contar pra mim o que é que Nilo está armando... Eu devia ter mandado esse filha da putinha embora faz tempo. Alimentando cobra, mais uma... Só eu mesmo.
Saiu desgovernado. Elzinha seguiu atrás o segurando e foi tratando de falar, antes que ele fosse atrás do Cigano. Era um dos poucos que se agradava dela e não lhe perdoaria aquilo.
-Língua solta, língua solta! Quê que eu tinha que falar!?-Respirou e continuou -Ó só, Mirim, eu falo, mas você não diz nada ao Cigano, sim? -ele firmou o olhar ameaçadoramente, ela gaguejou -Be... Belize chamou Nilo pra algum lugar e ele disse ao cigano que ia. Estava armando isso já tem uns cinco dias.
Mirim correu pra dentro resmungando que ia tirar do Cigano o paradeiro de Nilo nem que tivesse que abrir aquele treteiro. Falava, ah sim, o Cigano falava. Atravessou o corredor seguido de perto por uma apavorada Elzinha, gaguejante e arfando. Pegou o telefone e ligou pra Grilá; Ninguém atendeu. Deixou tocar três vezes até cair e ninguém atendeu. Discou o número do celular de Belize, relutante. Já fazia seis meses que não se falavam, por uma briga em que Nilo era o pivô. Estava fora de área. Sentiu-se aliviado por não ter que falar com ela. Ligou outra vez pra Grilá. Nada. Virou-se furioso para Elzinha:

-Fala Elzinha, antes que eu te amasse! Fale tudo! AGORA!
-Nilo...Vo... Você conhece, Mirim, como Nilo é.... Anteontem ele... -Mirim passou por ela atropelando, interrompendo a explicação. Ela se encostou à parede, soluçando. Quando ele estava na porta voltou um segundo:
-Você sabe que eu não gosto do Cigano, não sabe Elzinha?Nunca gostei e você vive enrabichada lá naquele buraco que ele diz que é uma casa... Pois hoje eu mato minha vontade de esfolar aquele um! Vou escrever meu nome nele à faca se ele não me der o paradeiro do filho de uma puta. E vou agora.


Abduzidos: Dante Ixo[7:43 PM]

[ Domingo, Agosto 22, 2004 ]

 
Capítulo V - BEM PERTO
Recuperou a consciência devagar em meio ao eco de um estrondo. Um zunido como uma cigarra dentro da cabeça. Apalpou no escuro pra entender onde estava. As costas enlameadas e a cabeça doendo. Levou a mão ao bolso com dificuldade, procurando pelo isqueiro. Tinha que achar sua bolsa. Pegou no corpo frio do cabo ainda preso pelo cinto, quase de cabeça pra baixo; gelou-lhe a espinha. A bolsa, a bolsa... Sim! Acendeu o isqueiro e viu o sangue pingando da cabeça do cabo. Um lado da testa despedaçado pela bala. O sargento não estava nas ferragens. Nilo saiu pela janela e deu um passo, atolando na lama até acima da canela. Voltou e tirou o revolver da cintura do cabo morto. Estava vendo o fogo ainda queimando, a menos de cem metros. Quem disparou contra o carro podia estar lá.
Aproximou-se abaixado e já bem perto não viu movimento algum, apenas o fogo e destroços. Como o sargento podia sumir e deixá-lo sem socorro no brejo? A resposta estava bem ali adiante, no corpo estendido do sargento. Nem uma alma viva. A carcaça do carro queimava. Era um cofre sobre rodas. Um carro preto estava no acostamento bem mais adiante. Entrou no asfalto, entre a fumaça e os corpos, apavorado. Um cheiro forte de gasolina, ardendo no chão. Um, dois, três, quatro, mais o sargento: cinco. Um deles era só meio corpo, a outra parte sumira. Estavam todos bem desfigurados, no meio do fogo. Três bananas de dinamite estavam no chão e alguns malotes queimavam bem perto. Entendeu a cigarra na cabeça. -Explodiram tudo... Caralho! E porque o carro parado lá ainda? Fugiram em outro? -Perguntou-se. Melhor seria se saísse logo dali. O carro forte estava a uns vinte metros, no meio do mato, ainda em chamas. Correu em direção ao carro preto no acostamento e o encontrou com as chaves na ignição. Virou e deu a partida, mas não saiu. Tremia como se sentisse frio. A dor de cabeça estava o deixando enjoado. Devia chegar o mais perto que pudesse de Tenente Flores, depois largava o carro. E se passassem, os homens da polícia, por ele... Era um carro suspeito...Quanto tempo até Tenente? Não podia pensar muito. Já estava prevendo que não chegaria ao destino naquele dia, e, portanto, perderia o encontro com Belize...
Enquanto ruminava o dilema, trinta segundos, um minuto, o fogo chegou até as bananas e foi-se o vidro de trás, atingido por um pedaço de asfalto arrancado pela explosão. Acelerou o carro bem fundo e ganhou distância. O zunido continuava na cabeça. Piiiiiiiiiii... Parou quando o pneu esvaziou por completo e ele abriu o porta-malas procurando o estepe. Lá estavam; uma parte dos malotes do carro forte. Tirou parte das roupas molhadas da bolsa e jogou do outro lado da cerca. Encheu-a com o dinheiro até o meio e completou a mochila com as roupas que sobraram. Passou a arma de Mirim mais pra cima; a outra, que tinha tirado ao cabo morto, estava guardada dentro do carro. Largou ela lá e entrou pelo meio do mato com a bolsa. Já dava pra ver as luzes da torre telefônica de Tenente piscando à distância. Ainda podia dar tempo. Pensou em quanto dinheiro tinha na bolsa. Não contou. A dor de cabeça aumentava. Devia ter tomado uma pancada no acidente. Ao telefone Belize havia dito, dias antes, que esperaria até as vinte e duas horas daquele dia, não mais. E não explicou porque. Precisava correr.


Abduzidos: Dante Ixo[8:31 PM]

[ Sexta-feira, Agosto 13, 2004 ]

 
Capítulo IV - FOGO NO ASFALTO
Caminhou em direção ao guarda que saiu da viatura e foi saudando:
-Que bom que pararam, achei que não tinham visto meu sinal... -Não tinha feito sinal nenhum, inventou na hora.
O policial ficou confuso, ele continuou:
-Será que vocês podiam me dar uma carona pro lado de Tenente Flores? Meu pai é policial também... Viatura bonita heim! Novinha... Até o pneu tá cabeludo ainda, cabo... Lercy...-leu o nome do policial na farda de relance.
-Não vai achar carona aqui nessa estrada, ainda mais vestido assim.
-Foi um cara num monza bege que me jogou a mochila da ponte, no caminho... Sujou toda minha roupa dentro...
O cabo olhava pra mochila, como se intrigado; ele olhava pros olhos do cabo. Se ele baixasse os olhos, seriam atraídos para o volume saliente da arma, que saltava; talvez voltasse a tremer e o policial desconfiasse...
-Podem me dar carona? -Repetiu, distraindo os olhos do policial, que o vasculhavam.
-Seu pai é o que? Soldado?
-Cabo, como o senhor.
O policial mediu-lhe de cima abaixo.
-Entra lá, rapaz. E não deixe essa lama toda encostar no estofado. A viatura tem só uma semana de uso e o delegado esfola. Vamos passar por Tenente Flores, mas antes vamos ao distrito de Cocais de Estrela, vai ter que esperar resolvermos umas coisas.
Foi em direção ao caro logo atrás de Nilo. Ele sentiu o olhar do cabo às costas.
-Sargento, esse rapaz vai conosco. Pra não dizerem que não fazemos boas ações também.
Riram os dois, o sargento mais friamente, pelo canto da boca:
-Que foi isso heim! Parece que está andando há dias, quanta sujeira. Você agora ajuda esses andarilhos, é cabo? Parece um mendigo... -O cabo riu olhando pra Nilo.
-É filho de cabo, sargento.
-Então tá explicada a sujeira -gargalhou cínico. O cabo se constrangeu, apareceu uma ruga na testa, parou de rir. Nilo esboçava uma risada que engoliu antes de escapar-lhe pela boca.
Não era filho de cabo. O pai, enquanto teve, foi comerciante, tinha um bar. Aliás, costumava ter problemas com policiais, por causa da clientela suspeita da birosca, que vez ou outra atraia a desconfiança da vizinhança. E com razão. Não era incomum uma saraivada de balas saltar lá de dentro por causa de uma partida de sinuca ou uma cachaça a mais. Certa vez quebraram o balcão térmico numa briga e o pai levou um tiro de raspão na costela por se jogar em cima do baderneiro. Era um homem de sangue quente.
A estrada estava deserta. De longe viram algo estranho. Estavam andando havia 20 minutos, estava completamente escuro, e nenhum carro havia cruzado ou ultrapassado a viatura. Havia fogo no asfalto a distancia.
-Quer apostar que botaram fogo em pneus na estrada, sargento? Foram aqueles sem terra, tenho certeza. Povinho encrenqueiro -supôs o cabo.
A viatura se aproximava do tremeluzir do fogaréu. O sargento estranhou:
-Não parece coisa de sem terra...
Nilo, sentado no banco de trás, com a mochila enlameada mas já seca no colo, olhava pra frente, pro fogo que ficava cada vez mais perto. As chamas pareciam circundar um carro grande, talvez uma vam. Ainda estavam a uns 900 metros ou mais, não deu pra ver direito. A viatura acelerou e os olhos do sargento saltaram. Segundos depois se ouviram os primeiros tiros e o pára-brisa partiu. A bala foi bater à direita de Nilo, entre o vidro traseiro e a janela lateral. Ele se deitou no banco, surpreso. A cabeça do cabo pendeu pro lado, mole. Seu corpo continuou ereto, preso pelo cinto de segurança.


Abduzidos: Dante Ixo[4:27 PM]